quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Vida inteligente, quão rara pode ser neste universo.

  "...É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas económicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, lideres supremos, todos os santos e pecadores da história da nossa espécie, ali  num grão de poeira suspenso num raio de sol..."
[Do livro Pálido Ponto Azul de Carl Sagan. Referencia do cientista à imagem do nosso planeta captada pela sonda Voyager (1)]

Foram graças a muitos acasos, coincidências, ou talvez não, quem sabe? que seres complexos e inteligentes como nós pudéssemos existir, talvez um dia se saiba, ou talvez não.
Além dos fatores digamos, geológicos, também necessitou de haver uma conjugação de fatores a nível biológico, físico e quântico para que a vida acontecesse no nosso planeta.

Num universo com um número estimado em 100 biliões de galáxias, tendo cada uma entre 200 a 400 biliões de estrelas e tendo em conta que cada estrela tem um ou mais planetas, e por sua vez cada planeta pode ter uma ou mais luas, (só o nosso sistema solar tem 8 planetas orbitados por um total de 146 luas confirmadas) seria expectável que outros mundos além do nosso também fossem também abençoados com o milagre da vida, não da simples resumida apenas a bactérias, mas da vida complexa de onde emergiram seres inteligentes como nós.

Mas talvez as probabilidades de reunir as condições necessárias para um mundo gerar vida, permitindo a sua evolução da simples até à inteligente, não sejam assim tantas. Tendo como modelo o nosso planeta, teve de haver uma conjugação de fatores que não devem ser assim tão comuns de acontecer, embora pese o número astronómico de planetas e luas que existem no cosmos.

  • Um calmo subúrbio galáctico:
Nosso sistema solar formou-se na periferia da Via Láctea, mas precisamente no braço exterior de Orion onde reina a calma e tranquilidade no que diz respeito a eventos cósmicos. Como um bom vinho, a vida também precisa de tempo, determinadas condições e de tranquilidade para amadurecer. Quanto mais perto do centro da galáxia, mais perto se está  do caos, mais exposto se fica a eventos cuja grandeza em termos de radiações e outros fenómenos, poderiam prejudicar de sobremaneira o desenvolvimento, ou até mesmo impedir o despontar de qualquer tipo de vida.

  • Uma estrela de tamanho certo:
O nosso sol, pertencente à classe G sendo por isso uma estrela média relativamente estável, este é um dos fatores determinantes que nos permite existir. Quanto maior for a estrela mais caótica é a sua existência e mais depressa seu fim. Rapidamente esgota o seu combustível nuclear tendo como consequência, uma duração muito mais curta tanto da estrela em si como do sistema solar que dela depende. Este fator impede a evolução da vida simples em complexa, a qual necessita de longo tempo para amadurecer.

  • À distancia certa:
O planeta terra orbita o sol na chamada zona habitável, se estivéssemos mais perto o planeta seria quente demais toda a água se evaporaria, se estivesse mais longe estaria frio demais, todos os rios e mares se encontrariam no estado sólido. Hoje todos os cientistas são unânimes num fator determinante, para existirem seres vivos, quer sejam de estrutura simples ou complexa, tem de haver água no estado liquido.

  • Um escudo anti-radiação:
O núcleo ferroso do nosso planeta gera um campo magnético que se estende por muitas centenas de quilómetros além do seu perímetro, absorvendo e desviando a imensa radiação e outras partículas nocivas emitidas pelo processo de combustão do Sol. Sem o escudo magnético, a radiação ao nível do solo seria de tal ordem, que “fritava” literalmente toda e qualquer forma de vida que surgisse na superfície do planeta. Poderia haver vida sim, mas apenas a nível subterrâneo ou nas profundezas dos oceanos.

  • Uma colisão tirânica:
Nos primórdios da formação do nosso sistema solar, o astro que futuramente viria a ser o nosso lar, partilhava a orbita com um planeta irmão (Theia) sensivelmente do tamanho de Marte, as orbitas acabaram por se cruzarem e obviamente os dois por chocarem. O evento foi de tal maneira épico que a rotação do nosso planeta foi abrandada de 22 para 24 horas, outro fator que contribuiu em muito para o surgimento de vida, pois tornou os dias maiores e portanto com uma maior exposição solar. Além disso o choque veio aumentar a massa do planeta terra que absorveu parte do seu congénere mais pequeno.
Mas o fator mais importante que realçou deste evento, foi a quantidade imensa de detritos lançados para o espaço resultantes do embate, formando mais tarde o único satélite natural da Terra, a Lua.

  • Um estabilizador natural:
A Lua não desempenha um papel meramente decorativo na perspetiva vista aqui da superfície da Terra., este astro e a distância a que se encontra, são também fatores determinantes para existirmos. A sua força gravitacional funciona como estabilizador, impedindo a oscilação excessiva do nosso planeta no seu eixo, permitindo assim haver estações estáveis. De outra forma nosso planeta oscilaria rapidamente e de forma aleatória, criando um clima errático onde tão depressa seria Verão com um calor tórrido, como tão depressa seria Inverno com um frio gélido, este fenómeno impediria qualquer espécie de se adaptar ao clima, tornado o processo de evolução insustentável.

Além disso o poder gravitacional da lua atua também nos mares, criando as marés contribuindo por isso para que haja um fluxo constante nos oceanos, este fator contribui para que estes não fiquem estagnados, se isso acontecesse não haveria fitoplâncton que é o responsável pelo suplemento de 70% de oxigénio que respiramos.

  • Um escudo anti-asteroide:
O nosso sistema solar teve a sorte de ser brindado na sua periferia com um astro, cuja massa equivale à dos outros planetas todos juntos, o gigante Júpiter. A física diz-nos que quanto maior a massa de um objeto maior é o seu efeito gravitacional , então, este planeta massivo funciona como uma espécie de escudo. O seu descomunal campo de gravidade atrai a maioria dos grandes asteroides que penetram no sistema solar. Se Júpiter não existisse, a frequência de embates de asteroides nos planetas interiores seria muito mais frequente, tendo como consequência, uma maior número de eventos catastróficos, idêntico aquele que se pensa sendo o responsável pela extinção dos dinossauros e pela a aniquilação de mais de 90% da vida na terra, obrigando a natureza praticamente a recomeçar de novo.

Analisando dos fatores mencionados que por si já não são poucos, existem ainda posteriormente a nível geológico uma outra serie de conjugações não menos vitais para a ignição da vida:

  • O tipo de vulcões primordiais cujas erupções ejetaram as matérias certas que permitiram a formação de uma atmosfera.
  • Atmosfera essa rica em vapor de água que permitiu a formação das primeiras chuvas que depositaram grande parte da água no nosso planeta (outra parte veio à boleia de asteroides que colidiram com o planeta).
  • Uma atmosfera com os gases certos para criarem uma barreira para que a absorção e refração de calor emanado do sol fosse a correta de modo, a que o planeta mantivesse uma temperatura amena e estável.
  • Os eventos geológicos de forma organizada que permitiram a elevação do terreno em relação ao mar, formando os continentes e ilhas.
(1)A célebre imagem captada pela sonda Voyager 1 antes desta sair dos limites do nosso sistema solar e penetrar no espaço exterior. Carl Sagan pediu aos técnicos da missão para virarem a câmara da sonda para trás, focar nosso planeta e tirar esta fotografia com o cosmos como pano de fundo:


A imagem ficou conhecida com o nome de Pálido Ponto Azul (em inglês, Pale Blue Dot), servindo de inspiração para o livro com o mesmo nome de Carl Sagan.

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